
Ano passado, nessa época, eu estava toda romântica sobre o natal, uma data que sempre adorei. Ah, as luzinhas acesas enfeitando a cidade... ah, as crianças de férias da escola fazendo bagunça no shopping e escolhendo presentes... ah, isso, ah, aquilo. Uma grande chata, isso sim.
Incrível como a gente pode mudar tanto em doze meses. Esse ano, eu já estava contando com o tal espírito natalino que sempre baixou em mim, religiosamente, em todos os natais. Até este. Poizé. Acontece que, em 2009, o danado não veio. Esperei mais um pouco, estranhando a ausência. Mas nada, nadinha mesmo.
Se eu tivesse vivendo no piloto automático, nessa época fatalmente a marcha mudaria, mas não, eu estou prestando atenção em mim, conectada com o que eu sinto, seja bom ou ruim, bonito ou feio. Então me dei conta. Começou quando eu não consegui ver beleza em nenhum enfeite de natal, em lugar nenhum. Estou achando tudo tão over, tão sem sentido, uma breguice gigantesca mesmo. Pronto, falei.
Outro dia, na Paulista, voltando do pilates, achei que ia ficar comovida, porque a Paulista nessa época é atração turística, você sabe. Mas não. Os postes enfeitados pelo Itaú, se você reparar bem, são de um mau gosto terrível. Talvez de noite fiquem mais charmosos, porque menos iluminados, mas não sei não. O natal é o paraíso dos feltros coloridos. Onde os feltros estão no restante do ano? Por que todo mundo resolve amar o feltro no natal, de repente? E os gliters, claro. Muito gliter: verde, vermelho, azul, dourado e prata. E nem é carnaval.
Comecei a prestar mais atenção à minha volta e me decepcionei com as luzinhas dos prédios, todas desgrenhadas, amarradas com pressa, ou sem vontade. Elas me lembram a imposição dessa época: decore sua casa, acenda sua alma, seja generoso, seja caloroso, você tem que estar feliz. Tem que. Aí lá vão as pessoas amarrar os enfeites de qualquer jeito, combinando coisas estranhas que não se comunicam, como abelhas e pinguins, e macacos gigantes, no meio da selva do natal, no meio do chato shopping Iguatemi.
No meu prédio, esse ano temos renas. Bonitinhas, de dia. De noite, as luzes dentro delas são brancas. Luzes frias, como as de cozinha, escritório ou necrotério. Não as luzes amarelas, que lembram velas, lareira, fogo, calor. Não as luzes amarelas que são discretas e não estragam as outras cores (eu acho que até embelezam). Mas aquela luz branca forte, quase azul, escancarada. E na fachada do prédio, uma cortina de luzes que deveria enfeitá-lo, tem cada metade das lâmpadas de uma cor, assim: acabou a luz branca, vamos pegar a amarela que sobrou do ano passado e emendar porque, né, ninguém nem vai notar a diferença mesmo. O importante é brilhar.
Poderia até ser um protesto silencioso de alguém que diz: tá bom, eu tenho que engolir o natal, então engulam isso, you suckers. E quem tem TOC nem deve sair de casa à noite.
Logo adiante, um prédio tem luzes azuis mal penduradas. Deviam estar na promoção, então ótemo. A cor é o de menos. Podiam até ser pink. O importante, afinal, é brilhar. Brilhar muito.
Quase todos protestam, ainda que inconscientemente. Como os shoppings, que precisam se vestir inteiros. É um verdadeiro circo. Mamãe ursa coloca os bebês ursos pra dormir no térreo, enquanto alguns ursos mais ousados voam de asa delta (arrã) no segundo piso.
E você quase sente a poeira daquele amontoado de coisas que ficam guardadas todo o resto do ano, entupindo algum depósito por aí. Imagine só quantos depósitos silenciosos são usados o ano todo pra guardar essa quantidade de tranqueiras. Dá pra formar um exército bem eclético de pelúcia, com certeza. Acho que o natal é mesmo a grande festa dos ácaros.
Pode parecer que eu estou rabugenta, mau humorada ou infeliz, mas juro, não é assim que me sinto. Eu continuo me deslumbrando com as árvores no lindo jardim do meu prédio, com a luz do sol quando se põe e deixa o céu tão colorido. Eu continuo apaixonada pelos animais. Eu continuo me comovendo com miadinhos dengosos, abraços apertados e beijos sinceros.
Eu só comecei a achar muito chata essa história de que, por obrigação, tem que ser natal dentro de nós. Um monte de gente reclamando que ainda não montou a árvore, com um suspiro doído, como se um fosse um fardo terrível. Terrível e inevitável.
Aliás, eu descobri há pouco tempo um movimento super divertido chamado Crappy Santas (de onde "roubei" a imagem acima). Fotos dos tipos mais estranhos de Papai Noel distribuídos por aí, nas decorações natalinas mundo afora, são reunidas em um site. Olha só: "Every year, stores around the world become littered with crappy santas. Big corporations pump this crap out with little to no regard for santa-standards. Beard length, hat placement, belly size, and suit hue are all standards that must be enforced. If we're able collect 1,000 crappy santas by Christmas Eve the International Toy Federation will have no choice but to recall all these half-assed santas."
A ironia é que a maioria das pessoas acha tudo uma graça apenas porque não presta atenção em nada. Se tivesse um coelho da páscoa no meio das árvores de natal dos shoppings, é possível que ninguém notaria. Ou entenderia como um significado todo especial. Blah.
Outro dia fui visitar a minha mãe e sorri (com ternura, não com deboche) quando vi a guirlanda na porta do seu apartamento. Cheguei até a pensar: acho que era isso então, só sinto que é natal quando reconheço o natal na minha família. Mas pouco depois a gente caiu na risada, porque minha mãe nem conseguia enxergar pelo olho mágico que era eu, por causa das benditas folhinhas.
Entrei e vi, de cara, uma árvore simples, pequena e bonita (com luzinhas amarelas). E ao passear pela casa, encontrei os enfeitinhos de madeira que ela espalhou, com moderação, nos banheiros, nos quartos e na cozinha. Tenho que admitir que a casa ficou ainda mais acolhedora sim, mas porque eu percebi, em cada detalhe, que minha mãe fez tudo com amor e com cuidado. Fez tudo com sinceridade.
(Mas mamãe, que é sempre elogiada por ser elegante e ter bom gosto, quem diria, também tem um Crappy Santa ao lado da sua cama. Sorry, mami. Ninguém é perfeito.)
Tudo bem então, se dentro de você é mesmo natal e não porque você está constrangido diante do imperativo natalino. Concordo que aí tem sentido até o mais assustador bom velhinho, como tem sentido para as crianças. Mesmo as que não acreditam em Papai Noel (aliás, ainda existem crianças que acreditam em Papai Noel?).
Apesar de que, vamos e venhamos, quem teve infância sabe bem: ceia de natal nem é tudo isso, um monte de comidas estranhas. O melhor, para os chicos, sempre foram os presentes e ponto final. Ninguém pode nos condenar por isso.
Claro, fora a desculpa pra reunir a família, o que também é uma delícia. Ou não. Depende da sua família.
Trabalhar com publicidade me ajuda a ver com clareza o que a gente já sabe, mas não sente na pele: que muitas datas são exploradas apenas pra mover a indústria. Simples assim. E embora algumas destas datas possam fazer sentido, como para os cristãos faz sentido comemorar o aniversário de Jesus, outras a gente simplesmente aceita passivamente e incorpora como se fossem leis.
Então posso dizer que o que ganhei de presente nesse natal (e antecipado) foi a minha liberdade de viver ou não essa data da maneira que eu escolher. Por isso, nos dias que me senti "natalina", já dei o presente da minha mãe, da minha irmã, do meu namorado, da minha pituca. Não porque tinha que dar, mas porque quis dar. Vivi vários natais, com cada um deles, e quero viver muitos outros, antes e depois dos dias 24 e 25, em qualquer dia do ano.
Pode até ser que um dia minha casa esteja toda enfeitada, a mais brega das casas enfeitadas. Só espero que, se esse dia chegar, realmente seja porque eu sinta que é natal, não apenas porque o calendário me diz. Mas, por favor, se não for pedir muito, com as luzinhas amarelas, tá?